São Sebastião por Andrea Mantegna

São Sebastião por Andrea Mantegna

Tempo de leitura: 13 minutos

São Sebastião por Andrea Mantegna (1431-1506) pintado por volta 1480, é uma joia do Museu do Louvre que nos permite compreender um pouco melhor a origem do estilo renascentista na Itália e que teve audácia de romper com o estilo medieval tanto explorado durante toda a Idade Média.

O final da Idade Média por volta 1456 ficou marcada por uma devoção muito forte a São Sebastião, pois uma lenda atribuiu-lhe um papel de protetor contra a peste que vinha dizimando com a população desde o século XIV.

Na obra do pintor francês Josse Lieferinxe (?-1508), abaixo, vemos um exemplo de sua intercessão. Segundo a lenda, esse evento ocorreu muito depois da morte do São Sebastião, durante um surto de peste no século VII, em Pavia, (Itália).

“São Sebastião Intercedendo pelos Pestilentos” ( entre 1497 e 1499),
de Josse Lieferinxe (?-1508).

A peste negra devastou a Europa durante séculos, representado na pintura acima por pessoas mortas prontas para serem enterradas. No céu, São Sebastião, perfurado por flechas, se encontra ajoelhado diante de Deus pedindo ajuda e graça, em nome da humanidade, enquanto que um anjo e um demônio travam uma combate. Como o pintor nunca esteve na Itália, baseou-se do aparecimento do santo em Pavia, como se tivesse acontecido em Avignon (França).

São muitas as representações de São Sebastião nas igrejas da época invocando a sua proteção, no entanto, para comparar a pintura de Mantegna com uma pintura do estilo medieval do início do século XIV, com o mesmo tema, temos no Louvre o Retábulo de Thouzon, do pintor provençal da região Provença-Alpes-Costa Azul (Provence-Alpes-Côte d’Azur).

São Sebastião nessa obra é representado por uma figura simples alongada, vestido como um cavalheiro do século XV, sobre um fundo dourado, que claramente no indica um estilo do final da Idade Média, conhecido como “gótico internacional”.

Retábulo de Thouzon (ca.1410), pintor desconhecido. Museu do Louvre.

Como todos os artistas medievais, o pintor provençal que o representou, não procurou imitar a realidade, mas transmitir uma mensagem clara e sintética, facilmente legível por todos. O santo é facilmente identificável graças ao seu corpo crivado de flechas em referência ao seu martírio.

Mantegna ao contrário se diferencia, por uma busca realista e por uma arte de “trompe-l’oeil” (técnica artística ilusionista, para enganar o olho do observador), construindo sua obra, como uma janela que dá para um cenário real, respeitando as leis da perspectiva e a um estudo científico da natureza.

São Sebastião por Andrea Mantegna
São Sebastião (ca. 1480), de A. Mantegna. Museu do Louvre. Foto: W. Commons.

Mas o sucesso espetacular dessa pintura não é somente por suas características técnicas, mas também pela sua forma codificada em pintar elementos de significados espirituais e as problemáticas específicas da sua época.

Contexto histórico:

A pintura provém da igreja de Aigueperse, cidade na região da Auvérnia-Ródano-Alpes (França), onde teria chegado em 1481, provavelmente pelo casamento em 1481, do conde de Montpensier, Gilbert de Bourbon (1143-1496), com Clara Gonzaga (1464-1503), filha do marquês de Mântua, Federico I Gonzaga (1441-1484), amigo e protetor de Andrea Mantegna.

Sebastião de Narbona. Imagem: Google maps.

A obra reflete o fascínio de Mantegna pela Antiguidade e ilustra sua habilidade nos efeitos da perspectiva: o corpo do santo mártir, visto de baixo para cima, impondo ao espectador sua monumentalidade.

Segundo os textos da “legenda Aurea”, narrativas hagiográficas escritas por volta de 1260, pelo beato Tiago de Voragine (1228-1298), Sebastião era filho de dois fervorosos cristãos de Narbona (cidade no sudoeste da França, na região da Occitânia) e que decidiu-se juntar ao poderoso exército romano do imperador Diocleciano (284-305), para proclamar sua fé pelo mundo.

O imperador ao saber disso tentou dissuadi-lo dessa missão pessoal, ordenando que fosse preso, amarrado a uma coluna, e torturado por flechadas em seu corpo, até que renunciasse sua fé cristã.

Os soldados romanos que pensaram tê-lo deixado como morto amarrado foi salvo milagrosamente e cuidado por Santa Irene de Roma (288-304), irmã das Santas; Ágape e Quiônia.

“São Sebastião tratado por Irene” (1630), atribuído a Georges de La Tour (1593-1652).
Museu de Arte Kimbell, em Fort Worth, Texas (EUA).

Nota: Hoje, existem mais de dez versões no formato horizontal desse tema composto por George de La Tour (1593-1652). As opiniões sobre a pintura do Museu de Arte de Kimbell estão divididas: a maioria dos estudiosos a considera uma cópia, outros acreditam que é um original, pois existem evidências nas marcações dos contornos, nas cores da paleta, modelagem e nas pinceladas características do método de trabalho de La Tour.

A obra abaixo como o mesmo tema, em francês: “Saint Sébastien soigné par sainte Irène” (1649), é um original de Georges de La Tour, e se encontra em exposição no Museu do Louvre.

“São Sebastião tratado por Irene” (1649), de Georges de La Tour (1593-1652).
Museu do Louvre, em Paris.

Voltando a história: São Sebastião depois de recuperado, se apresentou aos dois imperadores pagãos de Roma; Diocleciano, imperador do oriente e Maximiano (250-310), imperador do ocidente, para dizer que estava vivo graças a Deus, e que parassem de perseguir os cristãos, pois tinham uma fé inabalável.

Mas os dois imperadoras, não perdoaram e o enviaram para ser espancado até a morte e que fosse jogado no esgoto principal da cidade de Roma, “Cloaca Máxima”.

“O Martírio de São Sebastião” (1558), de Paolo Veronese.
Igreja São Sebastião de Veneza.

Porém, na noite seguinte, São Sebastião apareceu para Santa Luciana, revelando onde foi jogado, que pode recuperar o corpo e depositá-lo nas catacumbas da Via Ápia, em Roma.

A pedido do Papa São Dâmaso I (366-384), o Imperador Constantino I (306-337) mandou erguer no local, a Basílica de São Sebastião das Catacumbas (ou São Sebastião fora dos Muros), mas em 826 diante das ameaças das invasões sarracenas, o corpo, segundo alguns historiadores, foi transladado para o Vaticano em Roma.

Basílica São Sebastião fora dos Muros. Foto: Wikimedia Commons.

Invasão que efetivamente ocorreu em 846, e a Basílica acabou sendo totalmente destruída. Reedificada pelo papa Papa Nicolau I (858-867) e novamente no século XVII.

Hoje, próxima ao altar-mor, se encontra uma capela à esquerda, contendo uma urna funerária como alguns ossos do Santo, e uma grande estátua em mármore de São Sebastião torturado por flechas, realizado pelo escultor Antonio Giorgetti (1635-1669).

Estátua de São Sebastião (ca. 1671), por Giorgetti, na Basílica de São Sebastião fora dos Muros. Foto: Warburg.

Informações sobre a obra e o santo:

Nome do artista: Andrea Mantegna, (1431-1506).

Título em francês: “Saint Sébastien”.

Ano de realização: Por volta de 1480.

Tipo de Suporte: Têmpera sobre madeira (Técnica de pintura onde são usados pigmentos sólidos coloridos que após serem moídos são misturados com água, gemas de ovos ou proteína de ovo, para dar consistência e opacidade na pintura). Muito utilizado na Renascença Italiana do século XIV e fim do século XV, e a preferida de Leonardo da Vinci.

Dimensões da obra: Altura: 2.55 m. e Largura: 1,40 cm.

Gênero da pintura: Cena religiosa, histórica.

Data e forma de entrada no Louvre: Comprada em 1910.

Padroeiro: Santo padroeiro contra a peste, desastres, fome, guerra, santo padroeiro dos arqueiros, dos policiais de Roma e da cidade do Rio de Janeiro. Símbolo homoerótico no renascimento, ícone homossexual no século XIX.

Festa Litúrgica: 20 de janeiro (para os católicos) e 18 de dezembro (para os ortodoxos).

Análise da obra:

Um estilo de pintar marcado pela predominância da perspectiva linear, de uma grande expressividade nas figuras representadas, e pelo aspecto escultural na representação do personagem em destaque, no caso aqui “São Sebastião”.

São Sebastião por Andrea Mantegna
São Sebastião escultural, de Mantegna. Louvre.

Nota-se que Mantegna tinha um grande fascínio pela antiguidade e pelas esculturas gregos-romanas.

De forma imperceptível ele criou uma falsa moldura pedra de pórfiro avermelhado (hoje, quase apagada, simbolizando o sangue de Cristo), a fim de enfatizar uma janela fictícia aberta para o mundo.

São Sebastião, de Andrea Mantegna
Moldura em pórfiro avermelhado, no quadro de “São Sebastião”, de Mantegna. Louvre.

Os dois algozes em primeiro plano á direita, foram cortados na altura dos ombros, contribuindo assim para esse efeito ilusionista.

Uma composição de fácil identificação, mas ao mesmo tempo enigmático. Podemos ver São Sebastião, crivado de flechas, amarrado pelos braços e pelas pernas, representando a figura de um mártir.

Distinguimos detalhes realistas como as flechas entrando e saindo pelo corpo, o sangue escorrendo manchando o tecido que o cobre e a base da pedra onde se encontram os pés.

São Sebastião por Andrea Mantegna
Flechadas no corpo de São Sebastião, de Mantegna. Louvre.

É de se notar também, o realismo das cordas que prendem o braços e os pés e os rostos dos dois solados marcados pela apreensão por não terem executado bem a missão na qual foram ordenados a cumprir.

São Sebastião por Andrea Mantegna
Detalhes cordas e nos rostos dos soldados na obra “São Sebastião”, de Mantegna.

Talvez por respeito e admiração pelo seu antigo centurião (comandante) erraram propositadamente a direção das flechas, evitando que atingissem algum órgão vital, como por exemplo; o coração.

Os dois arqueiros que estão quase que fora do quadro, só vemos uma parte dos corpos. Simbolicamente sugerindo que os romanos pagãos, não chegavam aos pés da santidade de São Sebastião.

Esses marcantes detalhes realistas, se encontram também confrontados com vários elementos estranhos e simbólicos:

1° – São Sebastião ao sobreviver as flechas, se encontra numa posição nobre e passível, feito uma estátua. Seu corpo aparece reto, impávido, bem em pé, sem sinais de convulsões e dores, um rosto cansado, penoso, virado para o céu, exprimindo fé e esperança na salvação, mas sem demonstrar desespero ou afobação.

São Sebastião por Andrea Mantegna
Rosto de esperança de São Sebastião, de Mantegna. Louvre.

2° – Outro elemento enigmático é a paisagem onde se desenvolve a cena, representado por vestígios arquitetônicos que reflete a admiração de Mantegna pela civilização antiga, mas também uma afirmação da superação dessa civilização pelo espírito cristão.

São Sebastião por Andrea Mantegna
Paisagem enigmática na obra de São Sebastião, de Mantegna. Louvre

A ideia de Mantegna para essa representação romana, foi fazer seu São Sebastião uma estátua viva, cor de mármore, preso a uma coluna romana de capitel coríntio semidestruída, substituindo a uma antiga estátua romana destruída, onde só restou um pé esquerdo calçado.

São Sebastião, de Andrea Mantegna

Esse vestígio do pé romano se encontra paralelo aos pés de São Sebastião, transmitindo a ideia de que aquele que está com o pé quebrado não poderá mais avançar (símbolo do paganismo), enquanto que os pés, dos que seguem o santo homem Sebastião, avançam em direção à salvação e a remissão dos pecados (símbolo do cristianismo).

Também vemos as ruínas de uma antiga cidade romana arrasada, podendo significar a queda do império e a futura vitória do cristianismo sobre o mundo pagão.

São Sebastião por Andrea Mantegna
Antiga cidade romana destruída, na obra “São Sebastião”, de Mantegna.

Acima das ruínas, vemos uma cidade de estilo renascentista, contemporânea a época de Mantegna, construída em forma crescente e helicoidal se estabelecendo no alto da montanha, numa paisagem de relevos vertiginosos.

São Sebastião por Andrea Mantegna
Jerusalém celeste, na obra “São Sebastião”, de Mantegna. Louvre.

Uma forma simbólica, para descrever a subida aos céus, para os homens de fé e de boa bondade, livres e salvos para entrarem na “Jerusalém Celeste”, ou no Reino de Deus.

A figueira nova que cresce no meio de antigas ruínas (representa o arrependimento, a prosperidade e o símbolo da continuidade entre o mundo antigo pagão para o mundo cristão.

São Sebastião por Andrea Mantegna
A figueira que representa o renascimento.

Conclusão final:

Andrea Mantegna fazia parte da escola veneziana na qual privilegiavam mais as cores; ao contrário da escola florentina que privilegiavam mais o desenho. Seu São Sebastião é um homem “real” de carne e osso, cujo corpo em grande parte nu revela os conhecimentos anatômicos do pintor. Os músculos do tronco e membros são trabalhados com precisão e exatidão.

Graças a Giorgio Vasari, que escreveu em 1550, várias bibliografias dos artistas do século XIV e do final do XV (Renascentismo) é certo que Andrea Mantegna leu o tratado do arquiteto e humanista italiano, Leon Battista Alberti, que falava de pintura e técnicas de pinturas, no livro: “De pictura” (1435).

Mantegna aprendeu com Alberti, a melhor maneira de representar uma cena utilizando perfeitamente a perspectiva linear como um estilo pessoal para representar um momento importante da história católica cristã, com uma espantosa autoridade estética, dramática e de forte comoção.

Seus personagens são animados de expressões comoventes fazendo com que o expectador reflita sobre mensagens simbólicas e históricas, deixadas para o nosso conhecimento e pensamentos.

Mantegna foi um grande percussor do renascentismo italiano e um especialista da antiguidade clássica, onde influenciou vários artistas do seu tempo.

Localização no Louvre:

Departamento de Pinturas Italianas.

Ala Denon, nível 1, Grande Galeria, sala 710, 712 e 716.

“São Sebastião”. Louvre. Ala Denon, nível 1, Grande Galeria, sala 710, 712 e 716.

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Fonte: Site do Museu do Louvre.

4 Comentários


  1. Caro Tom,
    É sempre gratificante receber as doses do seu profundo conhecimento sobre a história e a arte em geral.
    Andrea Mantega é simplesmente revelador em suas pinceladas. Retratou de forma impecável o contexto da época do mártir, os demais elementos da tela, e em especial a anatomia de São Sebastião. Merece toda a nossa deferência.
    Mais um vez meus agradecimentos a você pela abordagem do tema.
    Cordialmente,
    Forte abraço
    Victor

    Responder

    1. Oi Victor! Fiquei feliz com o seu simpático feedback.
      É um prazer apresentar mestres do Louvre poucos conhecidos do grande público.
      Pode aguardar que outros virão!
      Abraços! Tom

      Responder

      1. Olá Tom!
        Eu é que me sinto agraciado pela sua matéria.
        O prazer é todo meu em receber doses do seu vasto conhecimento.
        Parabéns mais uma vez a você.
        Certamente, estou no aguardo
        Abraços
        Victor

        Responder

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