Napoleão coroando a imperatriz Josefina

Napoleão coroando a imperatriz Josefina

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Napoleão coroando a imperatriz Josefina é o que vemos de verdade nessa pintura, e não ele se autocoroando, como muitas pessoas pensam.

O título dada a obra no Wikipédia em português: “A Coroação de Napoleão”, está escrita de forma errada. Já no site do Louvre está escrito: Le Sacre ou le Couronnement, que traduzido para o português seria: “A Sagração ou o Coroamento”, que parece ser o mais correto, ao menos para mim.

A Cena

No início a 1° ideia do pintor Jacques-Louis David (1748-1825) era realmente pintar Napoleão I (1804-1814/1815) se autocoroando, mas após alguns estudos que não lhe agradou, acabou aceitando a sugestão de seu aluno e assistente, Georges Rouget (1783-1869), que seria melhor retratar a cena que se passou posteriormente, onde Napoleão I° coroa a sua esposa, a imperatriz da França, Josefina (1804-181).

Um gesto menos autoritário, e mais nobre, “digno de um cavaleiro”, como ele mesmo disse. E foi esse tema que finalmente foi aprovado por Napoleão I°, e executado por David.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
Napoleão I coroando a imperatriz Josefina, de J-L David. Museu Louvre.

David, convidado para assistir a coroação (tipo fotógrafo da época) registrou em seu livro de notas, vários esboços, personagens e detalhes durante as mais de 4 horas que durou o cerimonial.

Somente começou a trabalhar a obra, em 21 de dezembro de 1805, quando conseguiu um local bastante espaçoso para organizar a cena com ajuda de maquetes de madeira, figurinhas em cera, e todo o necessário para representar os ilustres personagens, tanto os presentes, como os nãos presentes, mas que deveriam estar a pedido de Napoleão.

O ateliê improvisado na antiga Capela do Colégio de Cluny, (destruído em 1823), foi determinante para dar a obra uma verdadeira realidade a cena. No local se encontra o atual Hotel “des 3 Collèges”.

Capela do Colégio de Cluny (1860), de A. Varin (1821-1897).
Capela do Colégio de Cluny (1860), de A. Varin (1821-1897).

Terminada em 18 de novembro de 1807, foi exposta no “Salon Carré” do Museu Napoleão (futuro Museu do Louvre), entre 07 de fevereiro e 21 de março de 1808. No final de março ainda passou por alguns retoques.

Após a queda de Napoleão em 1815, David teve que partir para o exílio em Bruxelas, (Bélgica) conservou o quadro até 1819, ano em que doou ao Museu Real da França.

Em 1937, por ordens do rei Luís Felipe (1830-1848) foi retirado do depósito de obras do Museu Real, para ser exposto ao público, na “Salle du Sacre” (Sala da Sagração ou Coroação), no recém-inaugurado Museu de História da França, do Castelo de Versalhes.

Em 1889, a obra retornou para o Louvre, e uma cópia perfeita realizada por David, entre 1808 e 1822, comandada por grupo de executivos americanos foi colocado no mesmo lugar em Versalhes, onde está até hoje.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
A esquerda, original de David, no Louvre. A direita, cópia de David, em Versalhes.

A diferença entre a versão do quadro de Versalhes, é que a irmã preferida de Napoleão, Paulina, está vestida em rosa, enquanto que na original do Louvre, ela está em branco.

Os Regimes:

Antes da proclamação de Napoleão Bonaparte, em 18 de maio de 1804 (ou 28 de floreal do ano XII), que o consagrou 1° Imperador dos Franceses, e determinou o fim da 1° República francesa, o país já havia passado por três tipos de regimes políticos diferentes (ou três formas de governo):

Convenção Nacional, (21 de setembro de 1792 até 26 de outubro de 1795). Liderados pelos Montanheses (“Montagnads”), que instauraram um tribunal revolucionário, para perseguir e executar arbitrariamente todos que eram contrários a essa nova politica de governar.

Conhecido como o Período do Terror, (1793-194), onde aproximadamente 500.000 pessoas foram feitas prisioneiras, 100.000 executados ou vítimas de massacres, 20.000 a 30.000 fuzilados, e 17.000 guilhotinados , sendo o mais famosos , o rei Luís XVI (1774-1793), em 21 de janeiro de 1793, a rainha Maria Antonieta (1774-1793), em 16 de outubro de 1793 (37 anos), e o principal membro e lider dos Montanheses, Robespierre (1758-1794), em 26 de julho de 1794.

O Diretório (26 de outubro de 1795 até 9 de novembro de 1799). Com a queda de Robespierre, decretando assim, o fim do terror, esse regime politico autoritário, liderado por cinco membros diretores, determina o fim da participação popular no governo e uma solida aliança com o exército graças as vitorias exteriores de Napoleão, e a alta burguesia financeira. Com a entrada dos recém-eleitos deputados, e partidários que defendiam a volta da Monarquia (os Realistas), o Diretório sofreu um golpe de Estado, em novembro de 1799, por seus próprios membros, que votaram para criação de um novo regime, conhecido com Consulado.

Consulado (9 de novembro de 1799 a 18 de maio de 1804). Regime politico autoritário, onde em tese deveria ser dirigido por três cônsules, Jean Jacques Régis de Cambacérès (1753-1824), Charles-François Lebrun (1739-1824) e Napoleão Bonaparte (1769-1821).

Mas todo o poder ficou concentrado nas decisões de Napoleão, por suas vitoriosas nas guerras expansionistas, seus acordos de paz, armistícios, com a Áustria e a Inglaterra, reconciliação com a igreja católica (Concordata), fundação do Banco Francês (1800) e o novo padrão monetário, o “Franco francês”, modificação do Código Civil, crescimento da economia… Por isso, e outras razões, em 1802 ficou estabelecido que Napoleão Bonaparte fosse considerado Primeiro Consul, pelo resto de sua vida. Um governo conservador, autoritário, autocrático, centralizador.

O 1°Império na França.

Com a recusa de Luís XVIII (irmão de Luís XVI, o guilhotinado) em renunciar seus direitos sobre a coroa francesa, Napoleão Bonaparte apoiado pela população que eram opostos a volta da Monarquia, e com a maioria dos votos do Senado foi proclamado em 18 de maio de 1804, o novo regime conhecido como: Império.

Consequentemente o “Consulado” (visto acima) foi extinto, e o governo confiado a um Imperador com poder hereditário (como era na antiga monarquia). Assim sendo, Napoleão Bonaparte foi declarado, Primeiro Imperador da França, e seus descendentes, homens, sucessores do trono por direito.

"Napoleão I vestido coroado" (1805), de François Gerard (1770-1837).
“Napoleão I vestido coroado” (1805), de François Gerard (1770-1837).

Então, essa nova dinastia, “Bonaparte, como na época dos reis da França precisava de uma aprovação e proteção divina, ou melhor, uma aprovação e proteção de Deus, conferindo ao Imperador, um poder temporal na terra, como antigamente faziam os reis, na Catedral de Notre-Dame de Reims.

Essa coroação realizada e planejada em 02 de dezembro de 1804, na Catedral de Notre-Dame de Paris, para diferenciá-lo dos reis da França foi portanto, a melhor forma encontrada por Napoleão em confirmar e legitimar o seu poder perante todas as nações da Europa, e do resto do mundo, sejam elas amigas ou inimigas.

Jacques-Louis David foi o pintor escolhido para registrar esse momento histórico, e fazer desse tema uma propaganda politica e simbólica para o mundo.

"Autorretrato" (1794), de Jacques-Louis David. Museu do Louvre.
“Autorretrato” (1794), de Jacques-Louis David. Museu do Louvre.

Sua missão naquele dia era pintar quatro quadros do Imperador, um passo a passo de cada cerimônia, que iria acontecer:

  • Sagração ou Coroação de Napoleão, na Notre Dame.
  • Coroação de Josefina, na Notre-Dame.
  • La Distribution des aigles (ou Distribuição dos estandartes militares na frente Escola Militar, em Paris).
  • L’Arrivée à l’hôtel de ville” (a Chegada na Prefeitura de Paris).

No contrato, Napoleão deveria pagar a David, 100.000 francos por cada tela pintada. Mas na realidade pagou somente 65.000 francos, pela Coração de Josefina”, e 52.000 francos pela La Distribution des aigles”Os dois outros temas não foram pintados.

Composição da obra

Composição da obra:

A galeria de personagens representados na “Napoleão coroando a imperatriz Josefina“, segundo vários especialistas foi certamente inspirado na obra do pintor alemão, Pierre Paul Rubens (1577-1640): Le Couronnement de Marie de Médicis à l’abbaye de Saint-Denis le 13 mai 1610”.

"Coroação de Maria de Médici, na Abadia de Saint-Denis, em 13 de maio de 1610", de Paul Rubens. Museu do Louvre, na Galeria Médici.
“Coroação de Maria de Médici, na Abadia de Saint-Denis, em 13 de maio de 1610”, de Paul Rubens. Museu do Louvre, na Galeria Médici.

Para a Catedral de Notre-Dame em Paris, Jacques-Louis David, preparou um cenário grandioso para representar aproximadamente 150 convidados.

Com a presença do Papa Pio VII (1800-1823), cardeais, embaixadores, altos dignitários, familiares, militares… Napoleão levanta a coroa para colocar sobre sua esposa, a 1° Imperatriz da França, Josefina de Beauharnais.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
Napoleão coroando a imperatriz Josefina, de David. Museu do Louvre.

A cena se abre com um grande tapete azul esverdeado convidando o espectador também a participar da cerimônia.

Napoleão I° gostou tanto do que viu, que exclamou:

Ce ne pas une peinture, on marche sur ce tableau…” 

Em português:  “Não é uma pintura, nós andamos neste quadro….

Napoleão Bonaparte.

O ponto focal do quadro é a coroa levantada por Napoleão, destacada pela cortina azul esverdeada ao fundo.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
Detalhe coroa de Josefina.

Uma área central enquadrada pelas cores púrpuras dos mantos do casal imperial.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
Vestimentas do casal imperial.

A maior preocupação de David foi tentar fazer uma representação realista dos personagens, e de suas vestimentas. E conseguiu com muito sucesso, pois quando o quadro foi apresentado em dezembro de 1807, pela primeira vez a um público exclusivo, a grande satisfação das pessoas era tentar descobrir quem era quem no quadro.

Outro ponto focal do quadro, se encontra na cruz do arcebispo e cardeal de Paris, Jean-Baptiste de Belloy (1709-1808) traçado geometricamente segundo as regras dos pintores neoclássicos, e na qual David era um dos percussores.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
Ponto focal do quadro: A cruz do arcebispo e cardeal de Paris, Jean-Baptiste de Belloy.

Os personagens da obra:

Família Imperial:

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
Personagens da família Imperial.

A grande parte da família Imperial ficou posicionada em frente de Napoleão, com exceção do filho de Josefina, Eugênio de Beauharnais que ficou atrás, junto aos dignitários do Império.

1 – Napoleão Bonaparte I° (1769 -1821): Antes da coroação de Josefina que vemos no quadro, Napoleão já havia se autoconsagrado com uma coroa com folhas de carvalhos e de loros, em ouro e diamantes.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
1 – Detalhe do Imperador Napoleão I.

Símbolo marcante nas antigas vitórias militares romanas, principalmente de Júlio Cesar, grande conquistador da Europa, que Napoleão admirava e pensava imitar.

Em seguida coroou-se brevemente por cima desta, com uma réplica da coroa do rei dos Francos, Carlos Magno (768 -814), símbolo do poder do sacro Império romano-germânico.

Um gesto bem pensado de propaganda universal, confirmando uma nova autoridade Imperial na Europa, sagrada e legitimada, pelas bênçãos do Papa.

A coroação de Josefina por Napoleão I°, que David preferiu representar foi realizada depois dessas duas cerimônias de coroações, primeiro com a coroa de loros, e depois com a coroa de Carlos Magno.

Napoleão está vestido com uma túnica de seda de cor branca com bordados em ouro, um manto aberto de cor púrpura, bordados com abelhas douradas (símbolo do trabalho, da imortalidade e da ressurreição), e no interior pele de arminho.

A cor branca ou cândida, significa pureza de espírito e honestidade, tanto ele como Josefina usavam essa cor. Foi daí que surgiu a palavra candidato de cunho político!

2 – Josefina de Beauharnais (1763 -1814)Viúva de Alexandre Beauharnais (1760-1794) está no centro do quadro, ajoelhada numa almofada de veludo, bordada com abelhas douradas, de mãos juntas, como era exigido o cerimonial, aguardando ser coroado pelo seu marido Napoleão I°, já auto coroado Imperador da França, (por esse motivo já tinha os poderes divinos de Deus na terra, para abençoar e coroar quem desejasse).

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
2 – Detalhe da imperatriz Josefina.

Está usando um vestido de seda branco (pureza e honestidade) de mangas longas, com fios bordados em prata. Coberta por um longo e pesado manto de veludo púrpura, bordado com abelhas douradas, e no interior, pele branca de Arminho, (símbolo da pureza, utilizada por rainhas da França). Finalizando com um diadema de ouro, pérolas e diamantes.

Na realidade as duas damas que seguraram o manto de Josefina na cerimônia foram duas irmãs de Napoleão, mas a pedido do próprio Napoleão (evitando essa humilhação histórica), no quadro foram substituídas por uma prima de Josefina, Madame Adélaïde de La Rochefoucauld, e sua dama “d’atours”,  Madame Émelie de La Valette, (um tipo de companhia VIP).

Josefina está no centro da composição, que provocou várias críticas a David, pois confunde o expectador. Na verdade apesar de o tema ser conhecido por muitos como, “A Coroação de Napoleão”, para mim deveria se chamar, “A Coroação da imperatriz Josefina”.

3 – José Bonaparte (1768 -1844): Irmão mais velho de Napoleão. Na época do coroamento recebeu o título de 1° Príncipe de Sangue do Império, (1804). Em seguida foi proclamado, Rei de Nápoles (1806-1808), Rei da Espanha e Rei das Índias (1808 – 1813).

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
3 a 10 – Família Imperial.

4 – Luís Bonaparte (1778-1846): Oficial Militar durante o regime do Império foi promovido a “Condestável da França”, (em francês, “Connétable de France”), Primeiro Oficial da coroa. Em 1806 recebeu o título de Rei da Holanda. Foi casado com Hortênsia de Beauharnais, (filha do 1° casamento de Josefina). Em 1848, seu 3° filho, Charles-Louis Napoleon Bonaparte (1808-1873) tornou-se o primeiro presidente da França, e em 1852, com a volta do 2° Império tornou-se o famoso, imperador Napoleão III.

5 – Elisa Bonaparte (1777-1820): A mais velha entra as irmãs de Napoleão. Foi à única que teve realmente poderes políticos neste novo regime Imperial. Foi princesa do Principado de Piombino e de Luca, na Itália.

6 – Paulina Bonaparte (1780-1825): A irmã preferida de Napoleão, fiel e admiradora foi à única entre todos os irmãos, a visitá-lo na Ilha de Santa Helena. Graças ao seu casamento com Camillo Borghèse (1775-1832), Napoleão comprou a grande parte da coleção Borghèse, hoje expostas no Louvre.

7 – Caroline Bonaparte (1782-1839): Era a mais nova das irmãs de Napoleão. Foi casada com Joaquim Murat (1767-1815), marechal do Império, e depois, rei de Nápoles, e ela rainha, (1808 e 1815). Teve uma relação conflituosa com Napoleão. Morreu no exílio em Florença, Itália.

8 – Hortênsia de Beauharnais (1783-1737): Enteada de Napoleão, filha de Josefina, do seu 1° casamento com Alexandre de Beauharnais, casada com irmão de Napoleão, Luís Bonaparte. Está segurando as mãos do seu 1°filho, Napoleon-Charles Bonaparte (1802-1807), de 4 anos. Seu futuro 3° filho, Charles-Louis-Napoleon Bonaparte, será o 1° presidente, e o 2° imperador da França, denominado Napoleão III.

9 – Julie Clary (1741-1845): Esposa de José Bonaparte. Por causa dos títulos do seu marido foi rainha de Nápoles, rainha da Espanha, e das Índias. Irmã de Désirée Clary, primeiro amor de Napoleão, que posteriormente se tornou rainha da Suécia e Noruega.

10 – Napoleon-Charles Bonaparte (1802 – 1807): Sobrinho de Napoleão, filho de Hortênsia com Luís Bonaparte, neto de Josefina foi considerado até a sua jovem morte como filho adotivo do imperador, e legitimado para se tornar também imperador, caso Napoleão não tivesse um filho natural com Josefina. Seu terceiro irmão, Charles-Louis-Napoleon Bonaparte mais tarde se tornou o 1° presidente, e o 2° imperador da França, denominado Napoleão III. O quadro de David ficou pronto, dezembro de 1807, alguns meses depois do seu falecimento pela rubéola.

11 – Maria Letícia Ramolino (1750-1836): Mãe de Napoleão Bonaparte usando um diadema, e um véu sobre a cabeça foi colocada posteriormente por David, no centro da obra, em uma tribuna elevada para uma visão privilegiada da cena. Cercada por suas damas de Honra, Madame de Fontanges e Madame Soult (esposa do Marechal Soult).

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
11 – Maria Letícia Ramolino (mãe de Napoleão I) e duas damas de honra.

Mas na realidade não esteve presente. Foi Napoleão que pediu para David atribuísse a ela, um lugar de honra, olhando fixamente pare ele, orgulhosa dessa nova dinastia de soberanos “Bonapartes” que surgia naquele momento. Importante presença no quadro para legitimar a união da família imperial, perante a nova sociedade, e a população francesa.

Três motivos que levaram Maria Letícia, não estar presente no dia:

1° – Não gostava de Josefina, por ela ser viúva e mãe de dois filhos, preferia que fosse outra mulher.

2° – Não gostou da briga que Napoleão teve com seu outro filho, Luciano Bonaparte (1775-1840). Napoleão, não aprovou o casamento de Luciano com a viúva, chamada, Alexandrine de Bleschamp. Por esse motivo, foi expulso de Paris, e enviado a Roma. E ela no dia da coroação, preferiu estar ao lado de Luciano.

3° – Também por Napoleão não ter convidado Jerome Bonaparte (1784-1860), o irmão caçula que havia se casado também sem sua aprovação, com uma menor de idade chamada Elizabeth Patterson. Casamento este anulado por ordens do Imperador.

12 – Eugênio de Beauharnais (1781-1824): Enteado de Napoleão, filho de Josefina, irmão de Hortência, pai de Amélia Augusta Eugênia Napoleona, 2° esposa de Dom Pedro I, Imperador do Brasil.

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12 – Detalhe de Eugênio de Beauharnais (filho de Josefina).

Presente na cerimônia bem atrás de Napoleão, vestido em hussardo (referente à Cavalaria ligeira) apoiado em uma espada (símbolo do poder militar). Foi quem levou o anel imperial, símbolos da união de Napoleão com o povo francês.

Grandes Dignitários:

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
13 a 16 – Detalhes dos Grandes dignitários do Império de Napoleão I.

Membros do Império que seguram três objetos simbólicos da coroação, chamada de “Regalia Royaux”, usados em comemorações pela realeza francesa.

Charles-François Lebrun (1739- 1824), arquitesoureiro do Império.

13 – Charles-François Lebrun (1739- 1824): Durante o “Diretório” foi deputado. Durante o “Consulado” foi o terceiro cônsul ao lado de Jean-Jacques-Régis de Cambacérès Napoleão Bonaparte. Durante o regime imperial recebeu o título de príncipe Arquitesoureiro.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
13 – Detalhe de Charles-François Lebrun

O “Cetro com a águia Imperial foi inventado por Napoleão para simbolizar seu poder e sua majestade Imperial ou “Comandante enviado por Deus para guiar seu povo para as Vitórias”. Uma imitação genérica do Cetro (“Sceptre”) do rei Carlos V, que tinha na sua ponta o trono de Carlos Magno, conservado hoje no museu do Louvre.

14 – Jean-Jacques-Régis de Cambacérès (1753 – 1824): Deputado e membro do Senado, na revolução francesa votou contra a condenação a guilhotina do rei Luís XVI, e sim para a uma prisão provisória até o retorno da paz na França.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
14 – Detalhe de Jean-Jacques-Régis de Cambacérès.

Durante o “Consulado” foi o 2° cônsul ao lado de Charles-François Lebrun, e Napoleão Bonaparte. Durante o regime Imperial recebeu o título de Arquichanceler do Império, uma espécie de Vice-Imperador, que podia assumir a presidência do Senado e do Conselho de Estado, quando Napoleão não estivesse na França. Segurou outro objeto simbólico monárquico durante a cerimônia: O bastão com a “Mão da Justiça”.

Mão da Justiça, Napoleão I.
Mão da Justiça, Napoleão I.

Originalmente é uma pequena escultura com três dedos levantados, que representam: o polegar: o rei; o indicador: a razão; o médio: a caridade; e os dois dedos abaixados: a fé católica.

No quadro de David, a mão foi remodelada e unificada, todos os dedos estão levantados, que significa a Autoridade do Poder Judiciário com o novo Código Civil, e seu Poder religioso, abençoado pela autoridade cristã o Papa Pio VII.

15 – Louis-Alexandre Berthier (1753-1815)Durante o Consulado foi Ministro da Guerra, e durante o regime napoleônico foi Marechal do Império. Em 1906 recebeu o título de príncipe de Neuchâtel et Valangin, na Suíça.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
15 – Detalhe de Louis-Alexandre Berthier.

No quadro Berthier segura uma almofada que contém o “Globo terrestre com uma Cruz“, em latim, “Globus cruciger, em francês, “Globe crucigère”.

Mais um objeto monárquico, símbolo cristão de autoridade utilizado desde a idade média. O Salvator Mundi”, ou Salvador do Mundo, foi colocado por David, para lembrar que o imperador Napoleão tem um poder temporal de Deus na terra, e é um legítimo representante Dele.

16 – Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord (1754-1838)Renomado por sua carreira diplomata excepcional: No antigo regime foi deputado na Assembleia dos Estados Gerais. Na Revolução Francesa foi presidente da Assembléia Nacional. Durante o Diretório e o Consulado foi ministro das Relações exteriores. No I° Império de Napoleão foi embaixador e ministro do exterior. Durante a restauração foi presidente do Conselho dos Ministros, e de novo embaixador sobre a Monarquia de Julho. Esteve presente em quatro coroações por ordem: Luís VI, Napoleão I°, Carlos X, e Luís Filipe I°.

Outros objetos simbólicos da realeza francesa que estão  dissimulados na obra de David:

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
Objetos simbólicos dissimulados, entre os personagens.

A – Réplica da coroa de Carlos MagnoUma forma de comparar seu futuro império como as dos reis dos Francos, e do sacro Império Romano-Germânico de Carlos Magno. Foi utilizado na cerimônia brevemente quando colocada por ele mesmo, sobre  a coroa de louros e alguns segundos sobre o diadema de Josefina. Durante a cerimônia esteve nas mãos do marechal do Império, François Étienne Kellermann. Em exposição no museu do Louvre.

Réplica da coroa de Carlos Magno. Museu do Louvre.
A – Réplica da coroa de Carlos Magno. Museu do Louvre.

B – Espada de Carlos Magno ou Joiosa (“La Joyeuse”): Espada usada pelos reis da França desde o rei Filipe-Augusto (1180-1223). Está dissimulado ao fundo levantado ao ar pelo marechal da França, François-Joseph Lefebvre. Em exposição no Museu do Louvre.

Espada de Carlos Magno ou "La Joyeuse". Museu do Louvre.
B – Espada de Carlos Magno ou “La Joyeuse”. Museu do Louvre.

C – Cetro de Charles V, ou “Sceptre de Charlemagne”: Símbolo do poder Imperial. Apareceu pela 1° vez na coroação do rei Carlos V (1364 – 1380). Durante a cerimônia da coroação esteve com o Marechal da França, Catherine-Dominique de Pérignon, e atualmente esta emexposição no departamentos de objetos de Arte do Museu do Louvre.

Cetro de Carlos V. Museu do Louvre.
C – Ponta do Cetro de Carlos V. Museu do Louvre.

O Clero:

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
18 ao 20 – Personagens do Clero

17 –  Papa Pio VII (1742-1823): Sentado olhando para as costas de Napoleão, em posição de inferioridade, sem os atributos principais pontificais, a mitra e a tiara papal. Identificado somente por causa do “Pálio“, espécie de manta de lã, que cobre os ombros do Papa, bordado com seis cruzes pretas, (símbolo da soberania da Igreja Católica Romana em suas metrópoles). Retratado aqui com uma testemunha passiva da cerimônia, um personagem apagado que parece estar fazendo figuração numa peça teatral.

Esboço da coroação de Napoleão, por Jacques-Louis David.
Esboço da coroação de Napoleão, por Jacques-Louis David.

Inicialmente foi desenhado por David com as mãos apoiadas nos joelhos. Depois foi modificado por ordens de Napoleão que preferiu vê-lo abençoando o casal imperial, do que vê-lo sentado sem fazer nada.

Lembrando que o Papa, não estava nada satisfeito com a lei estabelecida pelo Império, em 1801, (Concordata) que lhe dava plenos poderes ao Imperador da França, do que a própria Igreja. Pensava em discutir essa lei, mas foi ignorado. E afim de não comprometer a cerimônia, e a contra gosto, aceitou em participar.

18 – Jean-Baptiste de Belloy – Arcebispo e Cardeal de Paris. Teve a honra de segurar a cruz durante a cerimônia, ponto principal traçado por David para divisão geométrica do quadro. Como curiosidade foi inventor da cafeteira, que antes era somente feito por infusão.

19 – Giovanni Battista Caprara: Cardeal enviado pelo Papa Pio VII, para negociar o protocolo da cerimônia diretamente com Napoleão. Na realidade no dia, não esteve presente, por estar doente, mas foi colocado no quadro, a pedido de Napoleão pelos seus bons serviços ao sucesso do coroamento.

20 – Raphaël de Monachis: Monge egípcio em túnica vermelha interprete pessoal de Napoleão durante a campanha no Egito. Professor de língua árabe de Jean-François Champollion (o francês que decifrou os hieróglifos egípcios), e professor de árabe na “Ècole des Langues Orientales”, em Paris.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
20 – Raphaël de Monachis ou Jesus Cristo?

20 – Jesus Cristo: Segundo outras interpretações, aqui David retratou Jesus observando a coroação como um sinal de uma aprovação divina.

Marechais da França:

Marechais do Imperador de Napoleão I.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
Marechais do Imperador Napoleão I.

21 – Jean-de-Dieu Soult (1769 -1851): Marechal do Império, que Napoleão depositava muita confiança por sua bravura e estratégias de combates. Sua esposa é dama de honra da mãe de Napoleão

22 – Jean-Baptiste Bessières (1768 -1813): Marechal do Império, Coronel-General da Guarda Imperial. Brilhante oficial da cavalaria salvou a vida de Napoleão na campanha na Rússia. Participou intensamente da organização da cerimônia. Morreu em combate em 1813.

23 – Bon-Adrien Jeannot de Moncey (1754 -1852): Marechal do Império recebeu de Napoleão a medalha de “A Grande Águia da Legião de Honra” e muitas outras condecorações. No dia da coroação teve a honra de segurar o cesto que receberia o manto de Josefina.

24 – Jean-Mathieu-Philibert Sérurier (1742 -1819): Marechal do Império. Participou de varias batalhas e recebeu varias condecorações. Seu nome é um dos “boulevards” de Paris, conhecido como: Boulevard  Sérurier. Tem seu nome  gravado no Arco do Triunfo e a honra de segurar o anel de Josefina.

25 – Joachim Murat (1767-1815): Marechal do Império, casado com Carolina Bonaparte, irmã de Napoleão. Foi proclamado rei de Nápoles entre 1808 -1815. Ele está segurando a almofada que apoiava a coroa de carvalho e loros de Napoleão.

Tribuna de Jacques-Louis David:

Jacques Louis David (1748 -1825): Pintor da revolução, após a guilhotina de Luís XVI, do seu amigo Robespierre, e de ter sido preso, se aliou ao regime napoleônico em 1799, se tornando o 1° pintor Oficial de Napoleão em 18 de dezembro de  1804. Sobre a “Restauração” foi obrigado a partir para o exílio, (Bruxelas) onde morreu aos 77 anos.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
Tribuna Jacques-Louis David , familiares e amigos.

Na tribuna superior localizada acima da tribuna da mãe de Napoleão, David representou-se segurando um lápis, e um caderno desenhando croquis da cerimônia.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina

Esta cercado por amigos, membros da sua família, esposa Marguerite-Charlotte Pecoul, suas duas filhas gêmeas, Pauline e Laure, seu aluno e assistente, Georges Rouget,  seu mestre e professor, Joseph-Marie Vien e muitos outros.

Jacques Louis-David, um dos mais admirados e invejados pintores daquele momento, por seu estilo de compor, e por suas escolhas estéticas em suas obra. Teve uma escola que se formaram grandes pintores como: Ingres, Girodet, Gros, Gerard… Atualmente muitas de suas obras estão espalhadas por vários museus da Europa e Estados Unidos. Js.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina
Posição (sombra verde) real de David na Catedral de Notre-Dame de Paris.

Visto a perspectiva da obra é quase certo que David ficou posicionado em outro ângulo que a tribuna, talvez à esquerda, próximo aos irmãos de Napoleão, José e Luís Bonaparte.

Seu autorretrato na tribuna foi uma forma de assinar a obra, e para confirmar para posterioridade que esteve presente como convidado e pintor de honra de Napoleão, (nota-se que está vestido como a vestimenta da legião de honra, e não como pintor).

Conclusão:

Esta obra de David, além de ser uma propaganda política deste novo regime chamado Império, que tinha como objetivo legitimar a nova função de um governo autoritário, monocrático aprovado pelo povo, e por Deus, nós mostra também o surgimento de uma nova dinastia familiar: “Os Bonapartes”, em referência, aos Merovíngios, Carolíngios, Capetianos.

Um mundo unificado, controlado por Napoleão, e conciliado com a igreja Católica.

Ufa ! e Amém !

Localização da obra:

Napoleão coroando a imperatriz Josefina, de Jacques Louis David, se encontra na ala Denon, nível 1, Galeria Daru, sala 702.

Napoleão coroando a imperatriz Josefina. Ala Denon sala 702. Louvre.

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5 Comentários


  1. Parabéns!
    ESCLARECENDO DE MANEIRA DETALHADA A BELA OBRA

    Sou seu fã…..continua assim

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  2. Que descrição minuciosa, com riqueza de detalhes. Viajei neste quadro como se também estivesse presente na Coroação . Novamente, meus agradecimentos por seu trabalho informativo.

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  3. Uma belíssima e esclarecedora aula de história sobre essa fantástica obra de Davi rela tiva ao período Napoleônica. Parabéns..

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  4. Simplesmente sensacional! Vou olhar tudo novamente!
    Muito obrigada. E parabéns!

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