Joias da Coroa da França

Joias da Coroa da França

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As Joias da Coroa da França na Galeria Apolo, do Louvre são o que restaram da esplendorosa coleção que começou a ser reunida em 1532, pelo rei Francisco I (1515-1547) transmitida e enriquecida por vários outros soberanos franceses, e que infelizmente foi leiloada quase que por completo, pelo Estado em 1887.

Joias da Coroa da França
Entrada da Galeria de Apolo. Louvre. Foto: Wikimedia Commons.

A Galeria de Apolo foi uma antiga galeria de recepção construída em 1661 por ordens de Luís XIV, pelo arquiteto Charles Le Brun (1619-1690) segundo um tema iconográfico, sobre a a corrida do sol e sua encarnação no deus Apolo, (ler artigo), e que passou por várias restaurações entre 1899 e 2004.

Galeria de Apolo 2019

A necessidade de uma nova apresentação das joias da Coroa da França, que se encontravam expostas em locais diferentes e distantes do museu, a Galeria de Apolo acabou se beneficiando de uma reforma geral do seu salão.

Joias da Coroa da França
Galeria de Apolo (2020) após restauração. Foto: Marine Vazzoler.

Foi reaberta ao público em 15 de janeiro de 2020, toda renovada e trazendo de volta seu esplendoroso brilho, seus tesouros históricos e artísticos, antes apagados pelo acúmulo de poeira e desgastes do tempo.

Graças ajuda financeira da Maison Cartier, e 10 meses de trabalhos de limpeza das pinturas do teto, dos estuques, das tapeçarias, instalações de novos pontos de iluminações, novos sistemas de alarmes e segurança para as vitrines e visitantes.

Joias da Coroa da França
Vitrine de vasos antigos da coleção de Luís XIV. Foto: Sthephane de Sakutin.

Hoje podemos apreciar no mesmo local, a coleção de antiguidades de vasos de cristas e de pedras de Luís XIV, e das novas aquisições de joias da Coroa que estavam dispersas pelo mundo, compradas pelo Louvre no século XX e XXI.

As três novas vitrines:

Joias da Coroa da França
Galeria de Apolo. Foto: Antoine Mongodin.

Um dos principais pontos da reforma foi a criação de três novas vitrines no centro do salão para uma apresentação de forma cronológica das 23 joias reunidas que faziam parte da antiga coleção de joias da Coroa da França.

A 1° vitrine expõe joias da Coroa da França, entre 1530 e 1789.

A 2° vitrine expõe joias dos soberanos franceses, entre 1800 e 1850.

E a 3° vitrine expõe joias de Napoleão III, entre 1850 e 1870.

Desde 1861, a galeria já vinha expondo a coleção de objetos e vasos de pedras duras de Luís XIV em vitrines de madeira douradas projetadas no século XIX. Esses e outros mobiliários próximos as janelas continuam presentes nessa nova configuração dos espaços.

1° vitrine: Joias da Coroa da França (1532-1789).

Joias da Coroa da França
Vitrine das joias da Coroa da França (1530-1789). Louvre. Foto: Antoine Mongodin.

As principais joias expostas na vitrine são:

Coroa de Luís XV:

Joias da Coroa da França
Coroa de Luís XV (1722). Foto: Martine Beck-Coppola.

Os reis da França quando eram coroados e sagrados pelo poder divino, haviam o costume de mandar confeccionar sua própria coroa, conforme suas vontades. No caso de Luís XV (1610-1643) foram feitas duas coroas, uma em ouro esmaltado (desaparecida) e esta que se encontra na nova vitrine do Louvre, desenhada pelo joalheiro Claude Rondé, e executada por Augustin Duflos (1715-1774).

A coroa com pedras foi usada somente uma vez, na recepção que seguiu a celebração da coroação de Luís XV, com a coroa de ouro, na Catedral de Notre-Dame em Reims, em 25 de outubro de 1722.

Em 1729 a coroa foi desmontada, as pedras preciosas substituídas por cópias, sem valor, e levada para abadia de Saint-Denis com os outros instrumentos cerimoniais, chamadas Regalia. Entrou para o museu do Louvre, em 1852.

Detalhes da Coroa de Luís XV (1722). Foto: Martine Beck-Coppola.

As pedras principais que faziam parte da coleção de joias da Coroa da França, composta de 9.547 diamantes, 506 perola, 230 rubis e espinelas, 71 topázios, 150 esmeraldas, 35 safiras e 19 pedras semipreciosas foram roubadas entre 11 e 17 setembro de 1792.

Em 1794, depois de muitas investigações, somente 2/3 da coleção foi encontrada, e por sorte estavam incluídos os principais diamantes, como: “Le Regente”, “Grand Sancy” e Hotensia (este não fazia parte da coroa).

Capacete de estrutura metálica, com 8 arcos ornados de pedras preciosas, forrado por tecido de cetim bordado com 24 diamantes.

Coroa de Luís XV (1722). Foto: Martine Beck-Coppola.

A estrutura metálica em forma de círculo que se encaixa a cabeça é composta por 2 fileiras de pérolas e 8 pedras coloridas (safiras, rubis, topázios e esmeraldas) alternadas com diamantes.

Outra vista da Coroa de Luís XV (1722). Foto: Martine Beck-Coppola.

Em cada arco, uma flor-de-lis com três pétalas de diamantes, sendo que um delas é quadrada.

No alto, outra flor-de-lis, (símbolo da monarquia real francesa), agora com 5 pétalas de diamantes, 4 menores redondas e uma grande em forma de gota, o Grande Sancy”, de 55,23 quilates, o 2° diamante mais importante do Louvre, depois do “Le Regent”.

Detalhe do “Grand Sancy” na coroa de Luís XV. Foto: Martine Beck-Coppola.

No total, a coroa consiste de 282 diamantes (161 grandes e 121 pequenos), 64 pedras coloridas, (16 rubis, 16 safiras, 16 topázios e 16 esmeraldas) e 237 pérolas.

Em 1729, por ordens do rei Luís XV, todas as pedras foram substituídas por cópias, sem valor, com exceção do diamante “Le Regent” e o “Grand Sancy”, onde cada tem uma história particular. Todas as duas, expostas hoje individualmente nessa vitrine.

Os três diamantes: “Le Regent”, “Grand Sancy” e “Hortensia”.

Joias da Coroa da França
Vitrine com os diamantes: “Le Regent”, “Grand Sancy” e “Hortensia”.

Em detalhes a principais joias expostas da vitrine:

“Grand Sancy“:

Joias da Coroa da França
“Grand Sancy” (55,26 quilates). Foto: Stéphane Maréchalle

Descoberto provavelmente na Índia no século XV, após a passar por vários mãos, foi inventariado em 1589, como fazendo parte da coleção do rei de Portugal, Filipe I (1581-1598), que por problemas financeiros e guerra contra Espanha, penhorou a pedra.

“Grand Sancy” (em perfil). Foto: Stéphane Maréchalle.

Por falta de pagamento ao penhor, foi comprado em 1589, pelo diplomata francês, Nicolas de Harlay de Sancy (1546-1629) que ficou conhecida por esse nome, o “Grand Sancy” (55,26 quilates), o “Grand” foi para diferenciá-lo de um outro diamante que também possuía chamado, “Beau Sancy”, (“Belo Sancy”), de 34,98 quilates.

Nicolas também o penhorou no mesmo ano para para pagar mercenários a lutarem em 1589, junto ao rei Henrique III (1574-1589), na guerra contra os católicos radicais de Paris. Em 1604 acabou sendo vendido pelo seu irmão, ao rei da Inglaterra, Jaime I (1603-1625) e VI da Escócia (1567-1625).

Em 1647 foi novamente penhorada, agora pela herdeira do rei, a rainha consorte da Inglaterra Henriqueta Maria de França (1609-1669), filha de Henrique IV (1589-1610) e irmã de Luís XIII (1610-1643).

De novo, por falta de pagamento ao penhor, foi comprada em 1657, pelo cardeal Mazarino (1602-1661), que ao morrer deixou em testamento para ao rei Luís XIV (1643-1715), entrando assim para coleção de joias da Coroa da França.

Foi então colocado em 1722, para compor a Coroa de Luís XV (1715-1774), usada também por Luís XVI (1774-1793). Depois como joia por Maria Antonieta (1774-1793).

Durante a Revolução Francesa, toda a coleção mais móveis e objetos de valores que estavam espalhados entre palácios e residências da França foram levadas para serem protegidas no antigo Palácio Guarda-Móveis da Coroa, (atual Hotel da Marinha), na Praça da Concordia.

Mas, entre 11 e 17 setembro de 1792, a coleção com 9.547 diamantes, 506 perola, 230 rubis e espinelas, 71 topázios, 150 esmeraldas, 35 safiras e 19 pedras semipreciosas foram roubadas.

Em 1794, depois de muitas investigações, do total roubado, somente 2/3 da coleção foi encontrada, e por sorte estavam incluídos os principais diamantes, como: “Le Regente”, “Grand Sancy” e Hotensia“.

Toda a coleção foi leiloada pelo Estado em 1889. Diversos pessoas tomaram posse do “Grand Sancy” passando pelas mãos de espanhóis, um príncipe russo, um milionário indiano e por último, o bilionário americano, William Waldorf Astor (1848-1919).

Ficou na família Astor, até 1979, ano em que o Louvre comprou-o trazendo de volta para se juntar no pouco que restou da antiga coleção de joias da coroa da França, atualmente em exposição na nova vitrine da Galeria de Apolo.

“Le Regent”:

Joias da Coroa da França
“Le Regent”. Foto: Stéphane Maréchalle.

O famoso diamante, o “Le Regent”, se encontra na parte frontal, logo no início de um dos arcos da coroa de Luís XV, acima de uma grande rubi quadricular vermelho.

Descoberta em 1698 na Índia, na cidade de Golconda (Índia) pelo nome de “Jamchand”, pesava 426 quilates (85,2 g) antes de ser levada para Inglaterra, pelo governado inglês de Madras, Thomas Pitt (1653-1726).

Depois de lapidado, passou a pesar 140,64 quilates (28,1 g), mas é ainda considerado o melhor diamante do mundo pelo seu brilho impecável, corte perfeito e sua cor incolor, e a mais importante do Louvre, por sua historia e valor.

“Le Regent”. Foto: Stéphane Maréchalle.

Em 1717 foi comprado pelo regente Filipe II, Duque de Orléans (1715-1723), Regente da França durante a minoria de Luís XV, por isso ter recebido esse nome: Diamante “Le Regent”.

Joias da Coroa da França
“Le Regent”, na coroa de Luís XV. Foto: Martine Beck-Coppola.

Ela foi usada na coroa de três reis franceses: Luís XV (1715-1774) como já vimos no alto, Luís XVI (1774-1792), Carlos X (1824-1830), mas também por Napoleão Bonaparte (1804-1814/1815), num botão de gola, no chapéu bicorne e no alto da sua espada imperial, e por último em 1856, no diadema grego da imperatriz Eugenia de Montijo (1826-1920), esposa do imperador Napoleão III (1852-1870).

“Hortensia”:

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Diamante rosa “Hortensia”. Louvre. Foto: RMN-GP.

O diamante ”Hortensia” recebeu esse nome por ter sido várias vezes usado por Hortênsia de Beauharnais (1783-1837), filha de Josefina Beauharnais (1763-1814), esposa do imperador Napoleão Bonaparte I, casada com seu irmão, Luís Bonaparte (1178-1846).

O diamante rosado de 21,32 quilates foi adquirido lapidado em 1678, por Luís XIV que o usava como botão de roupa. Em 1691, foi inventariado entre os 19 diamantes da coleção de joias da Coroa da França.

Inventariado novamente em 1774 no reinado de Luís XV (1715-1774) e em 1791 no reinado de Luís XVI (1174-1792), onde apareceu cotado por um valor abaixo do mercado, devido a uma pequena rachadura em uma de suas facetas.

Durante a Revolução Francesa, toda a coleção, mais móveis e objetos de valores que estavam espalhados entre palácios e residências da França foram levadas para serem protegidas no antigo Palácio Guarda-Móveis da Coroa, (atual Hotel da Marinha), na Praça da Concordia.

Antigo Palácio Guarda-Móveis da Coroa, atual Palácio da Marinha.
Praça da Concordia. Foto: Wikimedia Commons.

Mas, entre 11 e 17 setembro de 1792, a coleção com 9.547 diamantes, 506 perola, 230 rubis e espinelas, 71 topázios, 150 esmeraldas, 35 safiras e 19 pedras semipreciosas foram roubadas.

Em 1794, depois de muitas investigações, do total roubado, somente 2/3 da coleção foi encontrada, e felizmente estavam incluídos os principais diamantes, como: “Le Regente”, “Grand Sancy” e Hotensia“.

Em 2 de dezembro 1804, com a coroação de Napoleão Bonaparte I (ler artigo), as joias que estavam bem guardadas passaram a serem exibidas e usadas por membros da família do imperador.

Napoleão I, antes de ser emprestar a sua nora, Hortênsia de Beauharnais, chegou a usar o diamante na alça de uma ombreira. Três anos depois de sua abdicação ao trono em 1815, um novo inventário foi feito em 1818 e a “Hortensia” constava na coleção.

De 1832 a 1848 as joias da coroa francesa permaneceram sob os cuidados da administração civil, voltando a reaparecer em público a partir 1852, no Segundo Império (1852-1870), com o imperador Napoleão III,

Joias da Coroa da França
Pente de borla com o diamante Hortensia no centro da Imperatriz Eugenia de Montijo. Acompanhado com sete estrelas e as três rosas com diamantes.

Em 1856, o diamante “Hortensia”, juntamente com outros 207 diamantes foi montado por joalheiros da Maison Bapst num grande Pente de borla (peigne à pampilles) para a imperatriz Eugénia De Montijo (1826-1920).

Exibidas na Exposição Universal em Paris em 1878, e depois no Louvre em 1884, antes de serem finalmente leiloadas em 1887.

A grande coleção de joias da Coroa da França foi vendida, mas o diamante “Hortensia” foi excluído do catálogo de venda e integrada ao Museu de História Natural. Mais tarde foi levada para o Louvre, onde se encontra exposta na nova vitrine da Galeria de Apolo.

2° Vitrine: Joias dos soberanos franceses (1800-1850).

Joias da Coroa da França
Vitrine das joias dos soberanos franceses (1800-1850). Louvre.
Foto: Antoine Mongodin.

Corresponde a joias do Primeiro Império com Napoleão Bonaparte I (1804-1814/1815)), da Restauração, com os reis Luís XVIII (1814/1815-1824) e Carlos X (1824-1830), e da monarquia de julho, com o rei Luís Filipe I (1830-1848).

As principais da vitrina são:

Diadema da duquesa de Angoulême:

Joias da Coroa da França
Diadema da duquesa de Angoulême. Louvre. Foto: Jean-Gilles Berizzi.

Diadema (ou Tiara) de esmeraldas e diamantes realizado em 1819, pelos joalheiros franceses Jacques-Evrard Bapst (1771-1842) e seu sobrinho, Christophe-Frédéric Bapst (1789-1870), considerado uma obra-prima pela riqueza das suas pedras, qualidade da montagem e detalhes artísticos do estilo clássico.

Um design simétrico de folhagens rolantes compostas por 1.031 diamantes cravejados em prata dourada. No centro do diadema, uma grande esmeralda quase quadrada, muito fina de 15,93 quilates, cercada por uma moldura de 18 diamantes.

Joias da Coroa da França
Grande esmeralda do Diadema da duquesa de Angoulême. Louvre.
Foto: Jean-Gilles Berizzi.

A grande esmeralda está acompanhada por 40 outras esmeraldas cravejadas em ouro, de vários pesos e tamanhos.

Presente oferecido pelo rei Luís XVIII a sua sobrinha, a duquesa de Angoulême, Maria Teresa Carlota de França (1778-1851), filha de Luís XVI e Maria Antonieta para completar um adorno em esmeraldas que ela já possuía desde em 1814, composto por um pente, um colar, pulseiras e brincos, realizados pelo joalheiro Paul-Nicolas Ménière.

Joias da Coroa da França
Diadema da duquesa de Angoulême. Louvre. Foto: Jean-Gilles Berizzi.

Durante o Segundo Império (1852-1870) o diadema chegou a ser usado pela imperatriz Eugénia de Montijo (1826-1920), esposa do imperador Napoleão III (1852-1870), mas acabou sendo leiloada em 1887, pelo Estado juntamente com outras joias da coroa da França. Comprada por um colecionador particular inglês, que mais tarde o revendeu ao Museu do Louvre, onde se encontra exposta na nova vitrine da Galeria de Apolo.

Colar e brincos de esmeraldas da imperatriz Maria Luísa de Áustria:

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Colar e brincos de esmeraldas da imperatriz Maria Luísa.
Foto:  Jean-Gilles Berizzi.

Conjunto de colar e brincos de esmeraldas e diamantes oferecido pelo imperador Napoleão I (1804-1814/1815) a sua 2° esposa, a imperatriz e arquiduquesa, Maria Luísa de Áustria (1791-1847), por ocasião de seu casamento em 1810.

O colar é composto por 32 esmeraldas, em forma ovais, quadradas e gotas, e adornada com 1138 diamantes, sendo 874 brilhantes e 264 rosas, de vários tamanhos.

A esmeralda central , de 13,75 quilates métricos, de forma oval tem em oito faces.

Joias da Coroa da França
Detalhe da esmeralda central do colar da imperatriz Maria Luísa.
Foto:  Jean-Gilles Berizzi.

Cada brinco possui uma grande esmeralda em forma de gota (pera), adornada com brilhantes e duas esmeraldas menores.

Joias da Coroa da França
Brincos de esmeralda da imperatriz Maria Luísa.
Foto:  Jean-Gilles Berizzi.

Antes que Napoleão I partisse para o exílio na ilha de Elba, em maio 1814, após sua 1° abdicação, Maria Luísa juntamente com seu filho Napoleão II (1811-1832), partiram para Áustria em 29 de março de 1814, levando suas próprias joias pessoais e todas que havia ganho e outras que faziam parte da coleção de joias da coroa da França, desobedecendo as ordens do novo rei da França, Luís XVIII (1814/1815-1824).

Após sua morte em 17 de dezembro de 1847, ela legou o conjunto ao seu primo grão-duque da Toscana, Leopoldo II de Habsburgo (1797-1870) cujos descendentes o mantiveram até 1953, ano que foi vendido ao joalheiro, Van Cleef & Arpels.

O conjunto completo, ainda incluía um diadema e um pente. Embora, o pente tenha sido modificado e as esmeraldas do diadema desmontadas e vendidas individualmente a uma rica colecionadora americana, o colar e o par de brincos felizmente foram preservados na sua forma original e voltaram para coleção das joias da coroadas em 2004, graças a Sociedade dos Amigos do Louvre e da direção do museu.

Conjunto de joias da rainha Maria Amélia:

Joias da Coroa da França
Conjunto de joias da rainha Maria Amélia. Foto: Mathieu Rabeau.

Todas as joias do conjunto são adornadas com safiras do Sri Lanka (antigo Ceilão) em seu estado natural, ou seja, sem aquecimento para mudança de cor, como são feitos hoje pelos joalheiros.

Safiras de vários tamanho e formas cercadas por pequenos diamantes montadas numa em estrutura de ouro. Todos os elos do colar são articulados, o que revela a grande perfeição técnica da execução.

O conjunto é composto:

1 Diadema com 24 safiras e 1.083 diamantes.

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Colar de safiras da rainha Maria Amélia. Foto: Mathieu Rabeau.

1 Colar com 8 safiras e 631 diamantes.

Joias da Coroa da França
Colar de safiras da rainha Maria Amélia. Foto: Mathieu Rabeau.

1 Par de brincos com 2 safiras e 59 diamante, cada.

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Par de brincos de safiras e diamantes. Foto: Mathieu Rabeau.

1 Par de broches pequenos: 1 safira e 26 diamantes, cada.

Joias da Coroa da França
Par de broches em dois formatos, com grampos de ouro.
Foto: Stéphane Maréchalle.

1 Broche grande composto com 4 safiras, 263 diamantes e grampo e ouro.

Joias da Coroa da França
Broches com grampo de ouro. Foto: Stéphane Maréchalle.

Foi usado sucessivamente por Hortênsia de Beauharnais (1783-1837), filha de Josefina de Beauharnais, 1° esposa Napoleão Bonaparte I, e comprado em 1821 pelo futuro rei dos franceses, Luís Filipe I (1830-1848) que ofereceu a sua esposa, e também futura rainha, Maria Amélia de Nápoles e Sicília (1782-1866).

O diadema foi reduzido entre 1863 e 1873, como revelado no retrato de Maria Amélia, por Louis Hersent.

Retrato de Maria Amélia, por Louis Hersent. Museu Condé. Chantilly.

Permaneceu por longo tempo com os descendentes diretos de Maria Amélia. Primeiramente com as princesas: Maria Isabel de Orleães (1848-1919); Isabel de Orleães (1878-1961); e apor último a condessa da França e princesa do Brasil, Isabel de Orléans e Bragança (1911-2003).

Apesar das várias personalidades ilustres usarem esse conjunto, o mistério da sua origem persiste, por falta de documentação dificilmente saberemos quem encomendou e quem a realizou as peças, mas tudo leva a crer que foram joalheiros parisienses do início do século XIX.

Em 1985, o conde de Paris, Henrique de Orléans (1908–1999), marido de Isabel Orleães e Bragança, com sérios problemas financeiros, negociou o conjunto completo com o Louvre, onde podemos hoje apreciá-lo em exposição na nova vitrine da Galeria de Apolo.

Par de braceletes da duquesa de Angoulême:

Joias da Coroa da França
“Bracelets de la duchesse d’Angoulême”. Louvre. Foto: Daniel Arnaudet.

Este par de pulseiras fazia parte de um conjunto de joias, criados em 1811 pelos joalheiros da Maison Nitot, para a imperatriz Maria Luísa de Áustria (1791-1847), 2° esposa de Napoleão I (1804-1814/1815).

Com volta da monarquia, o novo rei da França, Luís XVIII (1755-1824) ordenou que todo conjunto fosse desmontado para serem trabalhadas conforme a moda da época.

Assim, os rubis e brilhantes de Maria Luísa foram remontados em 1813, por Paul-Nicolas Menière (1745-1826) conforme desenho do seu genro Jacques-Evrard Bapst (1771-1842) e oferecido a duquesa de Angoulême, Maria Teresa Carlota de França (1778-1851), filha de Luís XVI e Maria Antonieta.

O novo conjunto muito parecido com os originais da Maison Nitot, consistia em um diadema, um colar, um pente, um par de brincos, um cinto, três clipes e esse par de braceletes de rubis e brilhantes, hoje em exposição na Galeria de Apolo, no Louvre.

As duas pulseiras são compostas de 24 rubis ovais, cercadas por 356 diamantes redondos. A cor escarlate dos rubis está realçada por sua associação com o brilho dos diamantes brancos.

Um friso regular alternando orbes e florzinhas é interrompido no centro por um oval oblongo decorado com três rubis.

Essas pulseiras, como o resto do conjunto, atravessaram os diferentes regimes do século 19 sem incidentes e foram usadas pela rainha Maria Amélia de Nápoles e Sicília (1782-1866) e pela imperatriz Eugénia de Montijo (1826-1920), esposa do imperador Napoleão III (1852-1870), mas acabou sendo leiloada em 1887, pelo Estado juntamente com outras joias da coroa da França.

Seu retorno a coleção da coroa, não ficou claro, sabemos somente que o par de braceletes havia sido adquirido em 1887, pela joalheria Tiffany, e que em 1793 foi legado ao Louvre por uma pessoa chamada Claude Menier.

3° Vitrine: Joias de Napoleão III (1850-1870).

Joias da Coroa da França
Vitrine joias de Napoleão III (1850-1870). Louvre.

As principais joias da vitrine são:

Coroa da Imperatriz Eugénia:

Joias da Coroa da França
Coroa da imperatriz Eugenia (1855). Foto: Wikimedia Commons.

A coroa da Imperatriz Eugênia revela o esplendor do Segundo Império na França (1852-1870), bem como o virtuosismo dos joalheiros da época.

Na Exposição Universal de Paris de 1855, o 2° imperador da França, Napoleão III (1848-1870) querendo impressionar ao mundo, expondo algumas das joias da Coroa da França, encomendou ao joalheiro, francês, Alexandre-Gabriel Lemonnier (1808-1884), que realizasse uma coroa com diamantes e esmeraldas para sua esposa, a Imperatriz Eugênia de Montijo (1826-1920) e uma outra para ele, (hoje, desaparecida).

A forma da coroa da Imperatriz é típica das representações das coroas imperiais, concebidas segundo um princípio já presente no brasão imperial do Primeiro Império.

Os motivos; águia (poder); louros e os ramos de palmetas (vitória e glória) são recorrentes no simbolismo imperial.

Arcos formados por oito águias em ouro, que se alternam com oito longas folhas de louro e palmetas (ramos de palmeira), incrustados de diamantes e esmeraldas. O conjunto totaliza 2490 diamantes e 56 esmeraldas.

No alto da coroa, um globo de pequenos diamantes, circundada por um anel, e um meio anel com 32 esmeraldas. No topo do globo uma cruz, com 6 brilhantes de diamantes.

Joias da Coroa da França
Globo de diamantes no alto da coroa da imperatriz Eugénia. Foto: Wikimedia Commons

Em 1876 foi restituído a imperatriz Eugênia, que se encontrava em exílio e após sua morte em 1920 deixou como legado para princesa Marie Clotilde Bonaparte (1912-1996), condessa de Witt. Em 1988 foi adquirido pelo Louvre.

Diadema da Imperatriz Eugénia (1853):

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Diadema da imperatriz Eugénia. Louvre. Foto: Wikimedia Commons.

Logo após seu casamento com Eugénia de Montijo (1826-1920), o imperador Napoleão III (1852-1870) encomendou em 1853, um novo conjunto de joias para ela, composto por um diadema (foto acima), uma coroa de diamantes (texto e fotos mais acima) e um grande broche de diamantes – “Grand noeud de corsage” – (próximo texto). Todos executados pelo joalheiro Alexandre Gabriel Lemonnier (1808-1884).

As pérolas, esmeraldas e os diamantes vieram de um conjunto criado em 1811 pela Maison Nitot para a imperatriz Maria Luísa de Áustria (1791-1847), 2° esposa de Napoleão I (1804-1814/1815) e modificado entre 1819 e 1820 por ordens de Luís XVIII (1814/1815-1824).

Detalhe do Diadema da imperatriz Eugénia. Louvre. Foto: RMN-GP.

Composto por 1998 diamante e 212 pérolas, de vários formatos e tamanhos.

O diadema de Lemonnier foi retratado na pintura da Imperatriz Eugénia, de Franz Xaver Winterhalter (1805–1873). Original desapareceu em 1870.

Retrato "Imperatriz Eugénia", por F. X. Winterhalter  (1805–1873)
Retrato “Imperatriz Eugénia”, por F. X. Winterhalter  (1805–1873).

Quando as joias da Coroa da França foram leiloados em 1887, o diadema da imperatriz foi comprada pelo joalheiro Jacoby que felizmente não a desmontou.

Em 1890, foi comprada pelo príncipe alemão Albert Thurn und Taxis por ocasião de seu casamento e vendida mais de um século depois, em 1992, pela princesa Gloria, para pagar dívidas de família, a Associação Amigos do Louvre, que o doou ao Museu. Hoje se encontra em exposição na nova vitrine da Galeria de Apolo.

Grande nó de diamantes da Imperatriz Eugénia (Broche):

Joias da Coroa da França
“Grand noeud de corsage de l’Impératrice Eugénie”. Foto: Stéphane Maréchalle.

O suntuoso Grande nó de diamantes da imperatriz Eugénia, (broches de diamantes), em francês: “Grand noeud de corsage de l’Impératrice Eugénie”, fazia parte de cinto em diamantes, executado em 1855, pelo joalheiro François Kramer.

Encomendado por Napoleão III (1852-1870), e dado de presente a sua esposa, a imperatriz Eugénia de Montijo (1853-1870) para ser exibida na Exposição Universal de Paris, do mesmo ano.

O desenho do nó, com duas franjas e pingentes laterais foram inspirados na moda do final do século XVIII, e é composto de 2.634 diamantes, sendo 196 diamantes rosa montado pesando no total mais de 140 quilates.

“Grande nó de diamantes da Imperatriz Eugénia”. Foto: Stéphane Maréchalle.

Em 1864, a pedido da imperatriz, o cinto foi desmontado e apenas a peça central, “O grande nó de diamantes” foi preservada para ser adaptada como um broche. Mede 11 centímetros de largura por 22 centímetros de altura.

Em 1887, o broche acabou sendo leiloada pelo Estado juntamente com outras joias da coroa da França e adquirido pela rica americana Caroline Schermerhorn Astor (1830-1908).

Em 2008 quando foi anunciado para venda pela casa de leilões Christie’s em Nova York, a direção do Louvre imediatamente expressou seu desejo de trazer a joia de volta à França. Por motivos legais, o leilão foi cancelado, e graças ao apoio da “Sociedade dos Amigos do Louvre” e do Fundo do Patrimônio francês, o museu conseguiu adquirir a joia por 6,72 milhões de euros.

Localização no Louvre

As 23 joias representam hoje um tesouro histórico do Louvre, onde cada uma teve uma trajetória distinta ao longo dos séculos, passando em mãos em mãos, reis, rainhas, princesas, imperadores, ricos homens e mulheres de negócio, são agora exibidas nas três novas vitrines criadas em 2019, na Galeria de Apolo, do Louvre, sala 705.

Joias da Coroa da França
Joias da Coroa da França. Louvre, Galeria de Apolo, nível 1, sala 705.

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Fonte: Museu do Louvre e artigos de imprensa.

12 Comentários


  1. Adorei a historia!! Pena que hoje só veremos uma pequena parte do que já exestiu.

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    1. Uma pequena parte mas que valem milhões! Espero você, Omar e galerinha no Louvre! Abraços!

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    2. Adorei a história e as jóias. Realmente lindíssimas. Parabéns pela matéria muito rica em detalhes. Espero conseguir visitar esta ala do museu na minha viagem a Paris.

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  2. Caro Tom,
    Congratulações pela matéria tão bem escrita e ricamente ilustrada.
    Joias magnificas e de rara beleza, cada uma com sua história peculiar.
    O “Le Regent”, ” Grand Sancy” e “Hortensia” são de tirar o fôlego de qualquer mortal
    Graças ao governo francês, amigos do Louvre e outros, aos poucos as peças retornam ao seu legítimo lugar
    As duas únicas oportunidades em que estive em Paris, não estive na Galeria de Apolo. É preciso muito tempo para apreciar todas as maravilhas do Louvre.
    Pretendo voltar um dia para apreciar de perto, essas e outras maravilhas
    Obrigado por compartilhar
    Cordialmente,
    Victor Feijó Filho

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    1. Obrigado Victor! Espero um dia poder te mostrar pessoalmente! Abraços!

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      1. Caro Tom,
        Eu é que tenho a agradecer a você por compartilhar o seu valioso conhecimento.
        Certamente será uma honra para mim poder estar em sua companhia.
        Forte abraço
        Victor

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  3. Estou embebecida …. parabens pela narrativa , espero ver tudo isso um dia e, com certeza com vc de guia

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  4. Tom Pavesi,
    Boa noite!
    As jóias são maravilhosas! Parabéns ao Louvre por reunir numa só galeria essa maravilhosa exposição!
    Parabéns a você por nos brindar com esse belo trabalho e pela descrição detalhada de cada jóia.
    Maria das Graças Paranhos

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    1. Merci Maria! Feliz que gostou! Agora é só vir para poder ver pessoalmente! Abraços!

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  5. Parabéns pela aula magnífica sobre As Joias da Coroa da França.👏👏👏👏👏Pretendo conhecê-las em breve!

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  6. Joias magnificas expostas sob o benefício da Maison Cartier ,demonstrando assim, a valorização aos Bens Culturais que devem ser sempre preservados nos espaços museais.
    Novamente o parabenizo Tom Pavesi, pela excelente descrição e riqueza de detalhes.

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